
O dia 18 de junho marca o Dia Mundial do Orgulho Autista, uma data que visa transformar a visão da sociedade sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), deixando de lado o foco na “cura” para celebrar a neurodiversidade. Para entender o real significado dessa data e a evolução dos diagnósticos no país, conversamos com as terapeutas ocupacionais Thamires Leal e Nathalia Araújo. Ambas trazem uma bagagem profunda sobre o tema: Thamires atua na área e é uma pessoa autista; já Nathalia é especialista em desenvolvimento infantil, possui formação internacional em integração sensorial e atua como formadora de servidores públicos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Pará.
Ao contrário do que muitos pensam, a data não foi criada para focar apenas na conscientização do diagnóstico, mas sim para celebrar o funcionamento neurodivergente.
“Essa data foi pensada por uma sociedade de pessoas com autismo. Eles queriam uma data que celebrasse o ‘como é ser autista’. A palavra orgulho não vem necessariamente do orgulho de ter autismo, mas de poder celebrar um funcionamento neurodiverso”, explica Nathalia Araújo.
Thamires Leal reforça essa visão, destacando que o orgulho caminha lado a lado com a resistência diante de uma sociedade que ainda impõe barreiras severas para a inclusão. “A gente consegue concluir nossos objetivos, mas às vezes paga muito caro por isso. Vêm as consequências das crises, das sobrecargas. Às vezes a gente tem que camuflar os nossos sinais e sintomas para ser inserido”, revela Thamires. É essa determinação diária que fundamenta o conceito de orgulho.
Nathalia complementa que o movimento busca desestigmatizar o espectro. “O autismo não é uma doença. É uma condição do neurodivergente. O orgulho existe para que comece a se desestigmatizar essa questão de doença e apenas de tratamento. Eles são diferentes, mas têm o seu lugar na participação social, no mercado de trabalho e na autonomia”, conta.
Nos últimos anos, o debate sobre o crescimento do número de pessoas diagnosticadas com TEA ganhou força. No entanto, as especialistas esclarecem que não há um “surto” real da condição, mas sim uma evolução exponencial da ciência e do acesso à informação.

“Não é que exista um aumento. A gente sempre esteve escondido nas margens da sociedade. O autismo sempre esteve presente desde as épocas passadas”, pontua Thamires.
Estima-se que a prevalência de autismo no Brasil seja de aproximadamente 1,2% da população. Além disso, dados do Mapa Autismo Brasil (MAB) mostram que 69,6% dos diagnósticos da pesquisa concentraram-se entre os anos de 2020 e 2024, comprovando essa aceleração recente na identificação do transtorno.
Essa evolução científica permitiu não apenas a identificação na infância, mas também a descoberta em adultos. Thamires, por exemplo, foi diagnosticada aos 30 anos. “Além de ser autista, tenho superdotação. A minha habilidade acabou camuflando muito dos meus sinais e sintomas na infância”, conta.
Nathalia Araújo acrescenta que a capacitação dos profissionais melhorou significativamente. “A ciência avançando faz com que os profissionais consigam se capacitar melhor e a gente consiga ter um número maior de pessoas diagnosticadas”, ressalta.
Questionadas sobre o que tem propiciado essa maior visibilidade e a manifestação dos sinais, as terapeutas apontam para uma combinação de fatores genéticos e ambientais.
“Hoje em dia existem vários estudos que mostram que o autismo tem uma combinação de fatores genéticos, de alguns genes que já foram mapeados, mas também temos as questões ambientais”, explica Nathalia.
Entre os componentes modernos que podem influenciar o funcionamento cerebral, ela cita o uso excessivo de telas desde a primeira infância, o modo de vida atual, questões alimentares e até a relação com bactérias do próprio intestino.
O Papel da Terapia Ocupacional e o gargalo na Rede de Saúde

A terapia ocupacional desempenha um papel vital no desenvolvimento da autonomia da pessoa autista. Nathalia detalha que o transtorno costuma gerar impactos nas atividades de vida diária (AVD), como vestir-se, alimentar-se sozinho e cuidar da própria higiene. “É necessário fazer uma intervenção para organizar essa rotina e o cotidiano”, afirma.
Outro ponto crítico é o Transtorno do Processamento Sensorial, que afeta entre 85% e 90% das pessoas autistas. “A terapia ocupacional é o carro-chefe, sendo a única profissão habilitada para tratar os sistemas sensoriais”, destaca Nathalia.
Apesar da importância das terapias, o acesso ainda é um grande desafio no Brasil. O Mapa do Autismo no Brasil aponta que 16,3% dos autistas mapeados não realizam nenhuma terapia, e a maioria dos que realizam possui uma carga horária baixa (entre 1 e 2 horas semanais), o que costuma ser aquém do ideal para necessidades mais intensivas. Além disso, a confirmação do diagnóstico e o tratamento ainda são predominantemente concentrados na rede particular e em planos de saúde.
Ao analisar a estrutura pública de saúde, Nathalia é categórica: “A rede ainda é muito insuficiente. Quando a gente fala de criança, ainda se tem algumas opções. Mas quando falamos de adolescente e adulto, não se consegue perceber quase nenhum local especializado”.
Ela ressalta que o estado do Pará tem sido pioneiro na Região Norte ao fornecer um eixo formativo de quatro módulos para capacitar servidores do SUS no atendimento ao autismo, mas reconhece que a expansão dessas redes é urgente em todo o país para garantir inclusão, suporte e qualidade de vida real a todas as idades.
O drama das mães atípicas nas filas do SUS

A celebração do orgulho autista traz consigo uma face oculta e dolorosa: a exaustiva jornada de mães que enfrentam a burocracia, a escassez de vagas e a falta de infraestrutura na rede pública de saúde para garantir o desenvolvimento de seus filhos. Longe dos holofotes, o cotidiano dessas mulheres é marcado pelo amargor da espera e pela incerteza.
O drama é vivido intensamente por Luciana do Vale, mãe de Mateus, de 7 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Sem uma rede de apoio familiar, sua rotina é solitária e extenuante. “Ser uma mãe atípica hoje não é fácil. Principalmente quando você não tem ajuda de ninguém. Minha rotina começa às 5h da manhã e vai até a meia-noite”, relata.
Como o filho não conta com um auxiliar de classe na escola, Luciana precisa permanecer no colégio durante todo o período de aula. Mateus ficou um ano sem acesso a terapias devido à redução dos atendimentos na rede pública, escancarando a fragilidade do sistema.
A barreira do acesso é ainda mais cruel para quem vive em regiões distantes, como Iolana Felipe Silva, estudante do ensino médio que reside em Soure, na Ilha do Marajó. Mãe de uma menina de 11 anos e do pequeno Paulo Gabriel, de 6, que é autista, Iolanda enfrenta uma verdadeira odisseia a cada 15 dias. Para buscar o atendimento de terapia ocupacional e outras especialidades para o filho, ela precisa pegar uma lancha e encarar duas horas de viagem para atravessar a Baía do Guajará até chegar a Belém, onde se submete às temidas filas da rede de saúde.
“Tem tanta coisa que uma mãe atípica precisa se preocupar e fazer para os filhos, que às vezes eu mesma me perco diante das necessidades tão grandes dele. Se eu não tivesse uma rede de apoio para cuidar seria muito difícil”, lamenta Iolana.
Tanto o filho de Luciana quanto o de Iolana encontraram um raro acalento na unidade de saúde pública do Telégrafo, em Belém, onde são atendidos pela terapeuta ocupacional Tamires Leal. Contudo, as respostas do sistema continuam lentas. Enquanto o debate sobre o orgulho avança, o clamor dessas mães nas filas do SUS lembra que a verdadeira inclusão só existirá quando o direito à saúde deixar de ser uma corrida de obstáculos.
Texto e fotos: Elielton Alves / Crefito-12 .
“Resistir também é garantir e preservar direitos”

Por Thamires Leal*
Para mim, que sou autista com diagnóstico tardio e altas habilidades/superdotação, além de terapeuta ocupacional atuante na área há 5 anos (inclusive na realidade do SUS), o Orgulho Autista é, fundamentalmente, uma ferramenta de sobrevivência e posicionamento político. Significa rejeitar a ideia de que precisamos nos moldar a um padrão neurotípico para termos valor. Na prática clínica e na vida, isso se traduz em lutar por acessibilidade real, e não em tentar “neutralizar” o autismo.
Por outro lado, vejo com muita preocupação a romantização e a generalização desse debate. Quando o foco se volta apenas para quem tem menor necessidade de apoio, como o nível um, cria-se uma falsa impressão de homogeneidade. Isso invisibiliza indivíduos com demandas severas de comunicação e autonomia, cujas famílias dependem da saúde pública e lutam diariamente por suporte básico.
Essa divisão de narrativas tem um impacto prático e perigoso na discussão dos nossos direitos legais. Existe um receio real de que propostas baseadas puramente no conceito abstrato de “neurodiversidade” possam enfraquecer conquistas já consolidadas.
O maior exemplo disso foi o PL 6.238/2025, que propunha reconhecer a neurodiversidade como expressão da diversidade humana. A reação de famílias e especialistas foi imediata, pois temeu-se que o projeto desconfigurasse o autismo como deficiência, ameaçando a Lei Berenice Piana e a Lei Brasileira de Inclusão (LBI). Diante disso, a proposta acabou arquivada em 2026.
O medo é real: se o autismo for tratado apenas como uma variação natural e perder o status legal de deficiência, direitos vitais entram em risco, como o acesso ao BPC/LOAS, cotas, acompanhante especializado na escola, atendimento prioritário e isenções.
É preciso pontuar que, até o momento, a legislação brasileira continua garantindo rigorosamente que a pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, independentemente do nível de suporte. A lei não exclui o nível um, embora existam discursos desinformados na internet tentando fazer isso; pelo contrário, há projetos no Senado focados em ampliar essa rede de atendimento.
Por isso, quando falamos em “orgulho autista como resistência”, precisamos entender que resistir não é apenas combater o preconceito. É também resistir contra interpretações teóricas que possam apagar a dimensão de deficiência do autismo e comprometer garantias legais, especialmente para quem necessita de suporte contínuo. Meu papel, unindo a ciência da Terapia Ocupacional, a vivência na saúde pública e a minha própria história, é mostrar que a aceitação social deve sempre caminhar lado a lado com a preservação dos direitos funcionais.
*Terapeuta Ocupacional e autista nível um de suporte.
