Terapia Ocupacional: Afeto e socialização previnem abuso de drogas

A terapeuta ocupacional Elecilda Rayol em atendimento no CAPS: é preciso ter afeto

Nesta sexta-feira, 26 de junho, celebra-se o Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfego Ilícito de Drogas, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para conscientizar a sociedade sobre os desafios relacionados ao uso de substâncias de forma prejudicial. Diante de um cenário complexo e que exige respostas sensíveis, a Terapia Ocupacional tem se consolidado como uma abordagem fundamental no acolhimento de pessoas com transtornos decorrentes do uso de substâncias, deslocando o foco da mera abstinência para a reconstrução da vida e da autonomia dos indivíduos.

Para compreender como a profissão atua nesse campo, conversamos com a terapeuta ocupacional Dra. Elecilda Pereira de Carvalho Rayol, que atua há cerca de 17 anos no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas, o CAPS AD III. Com vasta experiência em saúde mental, Elecilda ressalta que o tratamento deve ir muito além das questões de ordem clínica e medicamentosa, focando no processo de reinserção psicossocial e no resgate da autonomia e dignidade dessas pessoas.

Na estrutura da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), o terapeuta ocupacional desempenha um papel singular. Enquanto especialidades médicas e psicológicas focam nos aspectos orgânicos e psicoemocionais, a terapia ocupacional volta-se para a rotina e a vida concreta do paciente. Elecilda Rayol explica que os terapeutas ocupacionais possuem um olhar muito particular dentro da rede, pois trabalham diretamente com aquilo que sustenta a vida cotidiana das pessoas. Na dependência química, é exatamente esse cotidiano que fica desorganizado, impactado e empobrecido em todas as áreas.

A especialista relata que os usuários que chegam ao serviço muitas vezes perderam referências básicas, rompendo vínculos familiares, interrompendo estudos, afastando-se do trabalho e deixando de cuidar da própria saúde física e mental. No processo terapêutico, as intervenções da TO começam por questões aparentemente simples, mas que carregam um impacto profundo. O trabalho envolve desde a reorganização de horários de sono e o resgate de hábitos de autocuidado até o fortalecimento do vínculo familiar, que costuma ser um esteio importante e que geralmente se encontra abalado. “Os terapeutas ocupacionais também promovem a participação em atividades coletivas, a retomada dos estudos e a busca por inserção produtiva e comunitária”, explica.

Ao reorganizar esses pilares, o tratamento reduz os riscos de recaídas e favorece a adesão do paciente, uma vez que ele passa a visualizar novas perspectivas de futuro. A Dra. Elecilda defende que o vazio deixado pela droga não pode ser preenchido apenas pela abstinência. Ele precisa ser preenchido por vínculos, por participação social, por projetos futuros e por atividades que tenham real significado e façam sentido para a vida daquela pessoa.

 Sinais de alerta e o papel das famílias

No caso de adolescentes e jovens, Elecilda faz um alerta importante para pais e educadores, destacando que nenhum comportamento isolado confirma o uso de substâncias, pois é preciso sempre considerar o contexto. O que realmente deve despertar a atenção são as mudanças bruscas, significativas e persistentes no modo de agir do indivíduo.

A terapeuta elenca sinais visíveis de sofrimento que indicam a necessidade de um olhar cuidadoso e de acompanhamento especializado, como a mudança abrupta de comportamento, o isolamento social, a queda perceptível no rendimento escolar e alterações importantes no padrão de sono, que costuma ser uma das primeiras coisas prejudicadas.

“Mudanças repentinas nos grupos de preferência, irritabilidade excessiva, conflitos frequentes em casa ou na escola, a perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas e um aspecto visível de descuido com a própria aparência e higiene também são fortes indícios de alerta”, pondera.

Contudo, a profissional reforça que o monitoramento rígido não é o caminho mais eficaz. Ela pontua que, em muitas ocasiões, esse adolescente precisa de menos vigilância e de muito mais escuta. Para Elecilda, quando as famílias e os educadores investem em construir relações de confiança, as possibilidades de proteger e de cuidar adequadamente desse jovem aumentam de maneira significativa.

Redução de danos nas escolas e comunidades

Atendimento no CAPS em atividades que dão noção de uma vida mais sociável

A prevenção baseada meramente no medo ou na lógica proibicionista tem se mostrado insuficiente ao longo dos anos. Sob a ótica da Terapia Ocupacional, a prevenção mais potente não é aquela que se imprime através do temor, mas, sim, a que fortalece a vida do sujeito, criando condições para que crianças, adolescentes e jovens construam vínculos saudáveis, desenvolvam autonomia e participem ativamente da vida comunitária.

Nas escolas, a TO pode atuar desenvolvendo ações que estimulem o protagonismo juvenil, a convivência saudável, a expressão cultural, artística e esportiva, além de construir habilidades para lidar com as frustrações e os conflitos característicos dessa fase da vida. Nas comunidades, especialmente em territórios marcados por forte vulnerabilidade social, o foco está em fortalecer os espaços de pertencimento e de inclusão. Nesses contextos, prevenir significa garantir o acesso real à cultura, ao esporte, à educação e ao lazer, ampliando as perspectivas de futuro e a capacidade de enfrentar situações de risco.

Além disso, nos serviços de saúde mental, a Terapia Ocupacional trabalha alinhada com a lógica da redução de danos. Esta é uma estratégia ética e humanizada que reconhece a realidade de cada pessoa e busca diminuir os riscos e prejuízos associados ao uso de substâncias, preservando os vínculos e ampliando o cuidado sem julgamentos, segregações ou exclusões.

“Na minha experiência prática, prevenir é fundamentalmente ajudar uma pessoa a encontrar razões para investir na própria vida, fortalecendo seus laços e garantindo que ela se reconheça como alguém de valor e com um futuro a ser construído”, conclui.

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