Aerocamara gera debate na luta contra o coronavírus

Em Manaus, fisioterapeuta garante que o uso do dispositivo ajuda a desafogar hospitais reduzindo tempo de permanência de pacientes

     Em diversas reportagens já exibidas durante esse período de quarentena, o povo brasileiro tem percebido o quanto os fisioterapeutas são importantes nesse período de tratamento da covid-19. Muitos deles têm tido, além da dedicação, muita criatividade para superar as dificuldades que o quadro nacional apresenta nesse momento com déficit de leitos e de equipamentos de proteção.

      Como se sabe também, Manaus é uma das capitais brasileiras onde mais tem evoluído o quadro de coronavírus no Brasil. Pois foi de lá que surgiu uma das alternativas mais criativas para o tratamento da doença. A iniciativa tem gerado repercussão e tem sido recebida com ressalvas pelas associações e especialistas da área.

    O fisioterapeuta respiratório Manoel Amorim, chefe do serviço de fisioterapia do Hospital Samel, criou uma aerocâmara que permite que os pacientes sejam tratados em leitos comuns sem intubação e com ventilação não invasiva. A solução, desenvolvimento em parceria com o fisioterapeuta Elton Rico, é prática, barata e tem demonstrado resultados positivos. Mas deixou muitos especialistas ressabiados.

     A câmara é feita com materiais simples e baratos: apenas canos de PVC e plástico. A terapêutica é feita com um ventilador comum, chamado bipap, que é pelo menos 10 vezes mais baratos do que os ventiladores usados nas UTIs.

     Com o tratamento, Amorim garante que a recuperação do paciente é mais rápida e ele fica em média cinco dias no hospital o que oferece uma rotatividade de pacientes maior, liberando leitos mais rapidamente para novos pacientes.

   “Janela” – O tratamento para a Covid-19 liga o sinal de alerta quando o paciente apresenta sintomas de insuficiência respiratória. Nesses casos, o procedimento padrão é intubar o paciente na UTI e promover a ventilação invasiva que vai ajudar os pulmões a manterem a oxigenação do organismo e a superar a infecção pelo vírus.

     Manoel Amorim conta que ficou um pouco deprimido nas primeiras semanas de atendimento no hospital quando perdeu uma paciente que entrou nesse quadro e não pode ser internada na UTI por falta de leitos. Naquele dia ele foi fazer um atendimento domiciliar e não dormiu direito pensando numa maneira de atender os pacientes naquele período que ele chama de “janela”.

    Trata-se do período em que o paciente é internado com a insuficiência respiratória e que seu quadro não é crítico ainda. Nesse período a intubação é quase um imperativo para o tratamento, pois a ventilação não invasiva faz circular os fluídos que têm contato com o paciente, fazendo circular o vírus, o que pode contaminar não apenas a equipe de saúde como também outros pacientes.

A aerocamara tem viajado por diversos estados que solicitam o equipamento

   A intubação oferece outros riscos, pois, por ser invasiva, expõem o paciente a outras infecções que se oportunizam do organismo fragilizado. Portanto, a intubação deveria ocorrer apenas nos quadros mais avançados. A intubação como padrão também aumenta o índice de ocupação de leitos o que cria o problema de superlotação.

   “Com a aerocamara, conseguimos aproveitar essa janela de tempo entre o início da insuficiência respiratória e o período crítico que exige a internação da UTI, aumentando as possibilidades de cura mais rápida e diminuindo o tempo de permanência do paciente no hospital”, explica Manoel Amorim.

Críticas – Após a repercussão do trabalho do Dr. Manoel Amorim, surgiram críticas em relação aos possíveis riscos do procedimento com a aerocamara. A principal delas veio da Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva (Assobrafir). A nota considera que não existe literatura científica sobre o caso e se acerca dos protocolos de segurança e estudos sobre um dispositivo menor utilizado para intubação e extubação de pacientes em terapia intensiva para fazer uma série de ressalvas à utilização do equipamento.

     Apesar de não desconsiderar que, diante da pandemia, o dispositivo possa colaborar em situação específicas com a segurança dos profissionais de saúde.  A nota da Assobrafir gira em torno dos protocolos de segurança que protegem os profissionais e não recomenda que a ventilação não-invasiva seja procedimento de primeira linha no tratamento sintomático da Covid-19.

      Após a repercussão do caso, o Crefito-12 ouviu novamente o Dr. Manoel Amorim sobre as críticas. Ele afirmou que estranhou a reação e disse em sua defesa que, se não existe literatura científica sobre o dispositivo, que é novo, que os especialistas deveriam estudá-lo antes de criticar. Disse que o dispositivo comparado na nota técnica nada tem a ver com o dispositivo que ele criou e que, apesar disso, entende a posição institucional da crítica. “No momento, porém, eu preferi não virar as costas para a saúde pública. Não é um momento para que os egos falem mais alto”, disse ele.

      Manoel Amorim trabalha em um dos estados brasileiros mais castigados pela epidemia de coronavírus. Segundo ele, além dos casos e do caos que é anunciado superficialmente pela imprensa, os casos de subnotificação podem ser 30 vezes maiores do que os dados oficiais. “Digo isso sendo otimista porque a situação é muito grave”, afirmou.

No último dia 16 de março a equipe do Hospital Samel foi a Belém, demonstrar o equipamento para a equipe do Hospital de referência em Covid-19 do estado

      “Vanessa” – Apesar das críticas, o protótipo, que foi batizado de câmara Vanessa por causa da paciente que o inspirou a desenvolver o dispositivo, tem chamado a atenção. Além das redes nacionais de televisão, como a Rede Globo, o jornal americano Washington Post entrou em contato sobre o caso. O Hospital Samel, onde o fisioterapeuta trabalha, firmou parceria com o Instituto Transire, do Amazonas, para produzir 3 mil peças para atender pedidos de todo o país.

    Amorim afirmou que não patenteou o dispositivo e que a maquete dele está disponível na internet para quem quiser aperfeiçoar e colaborar. Desde o primeiro protótipo, o dispositivo vem sendo aperfeiçoado e já se conseguiu manter a pressão negativa dentro da caixa. Ele também informou que a utilização da câmara não dispensa o uso de EPI’s e que todos os cuidados devem ser tomados durante os procedimentos.

     O Crefito-12 solicitou dados sobre os pacientes atendidos pelo dispositivo que tiveram resposta ao tratamento mas ainda não recebeu os dados. Amorim, porém, garante que o equipamento tem efeito sobre o paciente e sobre o fluxo de rotatividade de leitos, evitando o colapso do atendimento no hospital. “Não visei dinheiro, apenas quis ajudar nessa hora tão difícil. Esse é um momento importante para a fisioterapia. Acredito que esse é o momento de nos unirmos”, concluiu.

Acesse AQUI Modelo da Aerocamera Vanessa.

Acesse AQUI Nota da Assobrafir sobre o Assunto.

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